terça-feira, 27 de maio de 2014

Abismo

Lembro-me dos olhos, verde e de grandes cílios que olhei profundamente, não houve sorrisos ou gestos, apenas magnetismo. Tão profundamente o olhei, já sabia o que estaria por vir. Quando depois de algumas horas falou comigo, aquela calma já me levara a pular sem ressalvas no abismo, apenas para deliciar-me na queda livre. O vi depois de alguns dias num parque, tão gentil e sereno como quem esconde em sí grande fúria e torpor, e foi exatamente isso que experienciei em sua cama, duelo, fúria, tesão. A cada novo encontro mais loucuras e desejos, força, sangue, risos, narciso brincando no espelho. Olhar em teus olhos é despir-se de tudo que finjo ser e me encarar com verdade, e isso assusta na mesma proporção que atrai. É uma cumplicidade estranha de quem só se entrega a sí. Estar contigo é olhar profundamente dentro de mim e enxergar a loucura e o gozo. Quando profundo me entrego e me atiro nos teus olhos de abismo, vem em meus pensamentos, ecoa em meu corpo e salta de meus olhos uma certeza, sou sua. E essa pequena frase me assusta, não pelo aprisionamento, mas pela absurda liberdade que me causa. Se não queres ser chamado, olhos lindos, por conta de tupã O chamarei de veneno ou abismo, para onde me lanço à morte certa com volúpia.

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