
Às vezes é necessário matar em nós nosso objeto de desejo, a fim de conseguir uma certa autonomia de nosso próprio destino. Nunca soube lidar muito bem com as frustrações em torno disso, a maneira que entendo de matar o objeto, é matando-o de fato, pois bem. Dias quentes na terra fria, desejo de reviver calores de outros ares, corpo dilacerado de desejo, desejo de violências, de duelo, de domínio, necessidade física e psicológica, tremo, imagino e tento dominar e não ser dominada...
...Um suspiro, nenhum cigarro, (maldita asma), dia chuvoso, minha imaginação me leva longe no deleite de prazeres que começam por arrepiar meu pescoço, faço um mosaico, com imagens de diferentes momentos e corpos, a mordida na nuca, a imobilização, mel, vendas, sons, lugares, sussurros, texturas, aromas, volumes, meu corpo explode de prazer num contorcer de pernas. Segundos depois de completa escuridão, retorno a mim com a consciência total de quem sou, não é uma questão de dominar ou ser dominada, mas sim de aceitar-se, liberta-se com vontade das amarras sociais e assumir a fúria, abrir as asas e saltar do precipício, sentir o desespero e o prazer da queda, para levantar voo no último instante.
Abro os olhos, vejo na cabeceira da cama “Assassinatos na rua Morgue”, presente de aniversário, abro uma gaveta da cômoda e lá estão vários artigos eróticos, filme na estante: Pulp Fiction. Penso, esse é meu universo, essa sou eu, instinto absoluto, busca por prazer e um certo niilismo.
Sentindo-me quase absoluta em minha existência, lembro-me de ti e penso em tudo que o encontro de nossos corpos desperta em mim, de como o meu desejo por você aumenta mais e mais o meu desejo de desejar, você é a melhor representação do precipício. Preciso encontrá-lo penso eu, num maravilha-se quase desesperador. Começo a arrumar tudo para recebê-lo, mas que fique claro, que pareça casual, lençóis, vinho, óleo de massagem, decote, lagerie, dias frios e corpos quentes, suados, prazer absoluto, entrega completa. Você conhece meu corpo quase melhor que eu, o entende o excita de uma maneira quase sublime, você, meu objeto de desejo, meu deleite e também minha perdição, neste instante um pensamento vem a minha cabeça tomando-me por completo: “Aceite-se, seja o que de fato é”.
De frente para você, num quase enlouquecer de desejo pelo seu corpo entre minhas coxas, deslizo minha mão sobre suas costas e alcanço debaixo do travesseiro o picador de gelo e cravo fundo em seu pescoço. Meu prazer é potencializado quando verte de seu corpo caudaloso e instigante o vermelho vivo e quente, não respondo por mim, atiro-me sobre seu pescoço sorvendo o suave líquido que o torna parte de mim e agora todo eu. O amor e o desejo que lhe tenho são fatais...