
Estamos todos sós de certa forma, hoje choro sem motivo aparente, poderia dizer que é um resultado hormonal, mas sei que seria uma desculpa tola, sinto uma angústia desesperadora, tenho vontade de rasgar meu corpo todo, há em mim uma dor ancestral, uma culpa ancestral.
De minhas escolhas, nunca tenho certeza, julgo tudo antes, sinto agora tão certo como há muito tempo atrás que não pertenço a este mundo, minha existência aqui é ridícula e limitada, sou nada. Quero sentir a paz em mim algum dia, gostaria de me sentir satisfeita com algo, estou sempre buscando um não sei que, que está longe, sinto-me pesada, ridícula, solitária. Queria ser feita de uma matéria importante, ter uma causa, um ideal, algo em que acreditar, mas sou um recipiente vazio cheio de espaço que nunca é preenchido. Tento pensar em tudo que fiz na vida até agora e achar algo que me importe, que me queira fazer ficar, mas não encontro, choro sozinha e escondida, bem baixinho em meu quarto para que ninguém saiba, se eu morresse hoje o que teria feito de bom pra deixar, que legado seria? Haveria algum? Não, não haveria, apenas a saudade natural das pessoas que aqui permanecessem. Não tenho filhos, não os terei, não construí nada, nunca estou completamente em nada, mesmo que seja isso que queira, há sempre algo fora que me desperta atenção, então lá vou eu em mais uma busca de não sei o que...alma nômade, se é que eu tenho uma, sou uma ferida exposta, purulenta, que não cicatriza.
Pareço tão bem por fora, que às vezes convenço a mim mesma que está tudo bem. O que me falta? E por favor, não venha me falar de Deus, neste momento minha pele, meu couro cabeludo, não tem sensibilidade alguma, sei que poderia me cortar tranquilamente até que a dor fizesse tudo ficar mais calmo, sei que preciso me controlar, não ceder a estes impulsos, pois sei a proporção a que podem chegar, mas as vezes me parece tão confortável. Há tanta dor no mundo, há tanta dor no meu mundo, acabo de me lembrar que meu estilete, não está mais no meu quarto. De que matéria eu sou feita, de que matéria tão fraca e corrompida, sou feita?
Mandíbula travada, rosto encharcado de lágrimas, sentada na cama, com as roupas que cheguei da rua, escrevendo desesperadamente, na ânsia de que isso possa aliviar a dor, minha pele pede cortes... Cicatriz, maldita quelóide. Paraliso bestificada, diante das coisas que escrevi, minhas mãos pousam sobre o teclado e eu as olho com pena. Não tenho com o que me cortar, me belisco e choro baixinho, paro pra escrever mais essa linha, não está adiantando, cortei as unhas hoje. Por que eu faço isso, por que preciso disso? Preciso escreve alguma coisa incessantemente para manter as mãos ocupadas em outra coisa, como diria Fernanda Abreu “o meu inferno é o céu pra quem não sente culpa de nada”. Não consigo escrever, minhas mãos querem outra coisa... desculpe.
Há sempre um vazio que nunca pode ser preenchido. Pode haver sempre uma sensação de que não se pertence a este mundo. Todos em menor ou maior grau passam por isso. Alguns simplesmente negam buscando um sentido maior - um deus, uma ideologia.
ResponderExcluirA questão talvez seja a de não se poder perceber que nunca haverá um sentido pleno, que as vezes buscamos incansavelmente coisas para preencher este vazio e nunca nos satisfazemos porque sempre estamos querendo mais, não conseguimos ver que não há a perfeição, e que perdemos muitas coisas por não conseguir vê-las. Pode acreditar que você já conquistou muitas coisas, talvez nenhuma daquelas que você sempre almejou muito e por isso mesmo não conseguiu ainda por estarem muito longe. Pode acreditar que você já fez sentido para muitas pessoas e que significa muito para muitas ainda. Talvez só não veja, ou não queira ver, para continuar achando que este mundo não é para você e acreditar nisso, ao invés de apenas olhar para si e para os outros que estão a sua volta, e ver que há um mundo todo de oportunidades e escolhas, e que só basta que você possa percebê-las e ir atrás.