terça-feira, 18 de agosto de 2009

Ana

Desde que era criança, Ana sempre foi muito criativa, tinha uma imaginação incrível, tanto que por volta de seus quatro anos ela tinha tantos amigos imaginários que criou uma cidade só para eles. O tempo foi passando e Ana sempre se relacionava mais com um mundo que não existia para os outros, só para ela. Talvez porque quando criança, ao preparar comidinhas para as suas brincadeiras, misturava abacate e cogumelos, ou simplesmente por algo que não se podia explicar.
Ana estudou, teve vários amigos não imaginários, participou de eventos, festas, escreveu, desenhou, dançou, fez tudo como os outros. Namorou, fez teatro, ouviu rock, blues, viajou, plantou sementes, chorou, tomou seu primeiro porre, mas havia nela sempre uma vontade de fugir, de fazer coisas que não faziam o menor sentido, como sair correndo pelo gramado, dançar na tempestade, chorar compulsivamente enquanto rasgava suas próprias roupas ou se cortar até fazer parar a dor.
Havia sempre essa sensação de estar a sombra de algo, ou de ser à sombra de algo. Ana não entendia o que era que lhe faltava neste mundo. Por que sempre tinha pesadelos e flashes de coisas violentas? Sonhava acordada, conversava com pessoas que ninguém mais via, sempre via animais onde eles não existiam, certa vez viu ao meio dia um enorme lagarto passeando em frente a um restaurante - Alucinei! pensou ela.

Ana estava cansada de tentar entender o que acontecia, cansada de sentir aquela dor estranha que a deixava tão inerte, de tentar distinguir o que era real da imaginação.

Naquele dia ela estava sozinha em casa, sua mãe iria dormir na casa de uma amiga para cuidar dos filhos dela. Seu irmão era vendedor e trabalhava em outra cidade, não voltaria para casa aquela noite. Sentou-se no sofá, pegou o garrafão de vinho, sim garrafão, e começou a beber. Tomou pouco mais da metade, desligou o som, não se ouvia nada além dos grilos lá fora, a chácara estava totalmente quieta. No peito de Ana rebombava um impulso de deixar esse lugar, de aquietar-se no silêncio. Então foi até o armário da cozinha e pegou a caixa de remédios, nada muito forte, mas misturou e tomou todos juntos. Voltou ao sofá e começou a beber mais vinho, chorava muito e nem sabia por que chorava, tudo parecia demorar muito, não estava morrendo. Então olhou para o chão e viu a lata verde com letras vermelhas e pretas e o desenho da típica caveirinha nela, não hesitou, tomou também o veneno, ajoelhou-se no chão e ainda chorava.
Começou a sentir dores na barriga, agora babava, seu corpo ficava quente e frio ao mesmo tempo e seu estômago doía muito, de repente ouviu ao longe um barulho de moto, seu irmão desistira de posar em outra cidade, pois sentira-se agoniado - disse ele depois. Quando ele entrou, ela estava babando e urrando como um animal, não lhe disse nada, ele viu os remédios pelo chão, o vinho, e por fim, o veneno. Ele sempre fora muito prático e em poucos minutos tinha chamado o vizinho que levou Ana de carro ao pronto socorro da cidade que ficava ha alguns quilômetros dali, enquanto de moto seguiu logo depois com os frascos de remédio e o veneno. No carro Ana não disse nada, apenas babava controlando os urros, chegando ao pronto socorro logo lhe fizeram uma lavagem estomacal.
O médico perguntava a Ana o que ela havia tomado, ela não disse nada. Ele bravo, bateu-lhe no peito enquanto a enfermeira passava a sonda, este gesto rendeu a Ana um machucado na garganta. Logo chegou seu irmão, com as informações necessárias para q o médico lhe aplicasse a medicação correta.
Todas as medidas foram tomadas, Ana teve alta e logo estavam na recepção sua tia e seu irmão, a esperando. Sua tia que fora durante toda a vida sua melhor amiga, companheira, confidente, a única que não questionava o jeito de Ana, a abraçou chorando e disse para que Ana se esforçasse para permanecer aqui, pois era esse o seu lugar.
Durante muito tempo Ana se questionou por não ter conseguido partir, mas depois pensou, não morri, pois já nasci morta para este mundo.

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