No meu segundo contato com a morte, sim porque ouve um primeiro, morte que eu causei...
...me lembro de ser alguém que executa o que é necessário, sem questionar muito ou pensar antes, depois sim , nunca antes, para não correr o risco de não executar, se havia uma cobra no quintal ou se era necessário retirar uma aranha ou rato de dentro de casa, eu o fazia sem hesitar. A morte para mim sempre foi algo natural, quando soltávamos as galinhas no quintal para que comecem os escorpiões, ou mesmo quando pescávamos lambari e os limpávamos para comê-los quando crianças.
Pois bem, do meu segundo contato com a morte, não me lembro de muitas sensações, mas me lembro das cores, criávamos porcos para vender, tanto vivos quanto mortos e limpos, sim porque nem todos conseguem ver a morte assim de frente, é necessário que existam outras pessoas para fazê-lo, tornando assim os outros menos assassinos. Eu sempre ajudara nessas tarefas, limpava com água fervente a pele do porco morto para retirar os pêlos com o auxílio de uma faca, cortava as carnes afim de separá-las, jogava terra sobre o sangue no chão para evitar moscas e também a má impressão a quem visse.
Naquele dia , coloquei as botas e prendi o cabelo como de costume, seu Antônio já havia amarrado o porco que berrava deitado no chão, então ele me deu a faca, uma faca pontiaguda e longa e me disse mostrando no animal onde eu deveria cravar a lâmina, empunhei a faca e enfiei com força no bicho, no primeiro contato parecia uma carne resistente, meio grossa, depois não, depois ficou macia e a lâmina entrou completamente, o porco berrava muito mais agora, eu só queria fazê-lo calar. O sangue muito vermelho jorrava da fenda e caía por sobre sua pele cinza, atingindo o chão que também se tingia, seu Antônio me avisou que eu havia furado no lugar errado, então comecei a procurar com a lâmina o local certo, porém, não a tirei de dentro do bicho que começou a berrar muito mais.
Seu Antônio tomou a lâmina de minha mão e disse:
- Assim não - então procedeu como se deve e logo o bicho silenciou.
Sua língua estava para fora, de um canto da boca, ainda com um pouco de espuma.
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