quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Juramento

Juro que depois de novembro voltarei a escrever no blog...

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Antes de caos e em meio a ele





Estamos todos sós de certa forma, hoje choro sem motivo aparente, poderia dizer que é um resultado hormonal, mas sei que seria uma desculpa tola, sinto uma angústia desesperadora, tenho vontade de rasgar meu corpo todo, há em mim uma dor ancestral, uma culpa ancestral.
De minhas escolhas, nunca tenho certeza, julgo tudo antes, sinto agora tão certo como há muito tempo atrás que não pertenço a este mundo, minha existência aqui é ridícula e limitada, sou nada. Quero sentir a paz em mim algum dia, gostaria de me sentir satisfeita com algo, estou sempre buscando um não sei que, que está longe, sinto-me pesada, ridícula, solitária. Queria ser feita de uma matéria importante, ter uma causa, um ideal, algo em que acreditar, mas sou um recipiente vazio cheio de espaço que nunca é preenchido. Tento pensar em tudo que fiz na vida até agora e achar algo que me importe, que me queira fazer ficar, mas não encontro, choro sozinha e escondida, bem baixinho em meu quarto para que ninguém saiba, se eu morresse hoje o que teria feito de bom pra deixar, que legado seria? Haveria algum? Não, não haveria, apenas a saudade natural das pessoas que aqui permanecessem. Não tenho filhos, não os terei, não construí nada, nunca estou completamente em nada, mesmo que seja isso que queira, há sempre algo fora que me desperta atenção, então lá vou eu em mais uma busca de não sei o que...alma nômade, se é que eu tenho uma, sou uma ferida exposta, purulenta, que não cicatriza.
Pareço tão bem por fora, que às vezes convenço a mim mesma que está tudo bem. O que me falta? E por favor, não venha me falar de Deus, neste momento minha pele, meu couro cabeludo, não tem sensibilidade alguma, sei que poderia me cortar tranquilamente até que a dor fizesse tudo ficar mais calmo, sei que preciso me controlar, não ceder a estes impulsos, pois sei a proporção a que podem chegar, mas as vezes me parece tão confortável. Há tanta dor no mundo, há tanta dor no meu mundo, acabo de me lembrar que meu estilete, não está mais no meu quarto. De que matéria eu sou feita, de que matéria tão fraca e corrompida, sou feita?
Mandíbula travada, rosto encharcado de lágrimas, sentada na cama, com as roupas que cheguei da rua, escrevendo desesperadamente, na ânsia de que isso possa aliviar a dor, minha pele pede cortes... Cicatriz, maldita quelóide. Paraliso bestificada, diante das coisas que escrevi, minhas mãos pousam sobre o teclado e eu as olho com pena. Não tenho com o que me cortar, me belisco e choro baixinho, paro pra escrever mais essa linha, não está adiantando, cortei as unhas hoje. Por que eu faço isso, por que preciso disso? Preciso escreve alguma coisa incessantemente para manter as mãos ocupadas em outra coisa, como diria Fernanda Abreu “o meu inferno é o céu pra quem não sente culpa de nada”. Não consigo escrever, minhas mãos querem outra coisa... desculpe.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Silêncio




Presa dentro de meu próprio corpo, calo-me, calo o corpo, o som, as cores, fico cinza.O mais estranho de tudo é que a ideia que me conforta, que me move é uma ideia de vermelho, de vermelho sangue, na verdade uma ideia mesmo de sangue derramado.
Caminhando na rua passei por uma mulher uma estranha criatura que vinha de longe esbravejando e batendo com força uma revista na mão, como que se batesse em alguém.O modo como ela se movia, o som da sua voz, me irritavam, me desagradavam, quando ela passou por mim, passando bem ao meu lado, muito próximo.Próximo o suficiente para que a lamina fria de minha navalha cortasse sua garganta e aquele pacote de maus modos caísse ao chão, num gemido gutural numa rua pacata do centro da cidade por volta das 14h. Eu segui meu caminho sem mudar de direção, esboçando um pequeno sorriso, nada de morte elaborada para certas criaturas, metal frio corte certeiro, apenas o silêncio tomando forma de navalha em corte profundo.

Fenix

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

...

SEMPRE HA DIAS DE MATAR, MAS EU NÃO MORRO NUNCA

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Ana

Desde que era criança, Ana sempre foi muito criativa, tinha uma imaginação incrível, tanto que por volta de seus quatro anos ela tinha tantos amigos imaginários que criou uma cidade só para eles. O tempo foi passando e Ana sempre se relacionava mais com um mundo que não existia para os outros, só para ela. Talvez porque quando criança, ao preparar comidinhas para as suas brincadeiras, misturava abacate e cogumelos, ou simplesmente por algo que não se podia explicar.
Ana estudou, teve vários amigos não imaginários, participou de eventos, festas, escreveu, desenhou, dançou, fez tudo como os outros. Namorou, fez teatro, ouviu rock, blues, viajou, plantou sementes, chorou, tomou seu primeiro porre, mas havia nela sempre uma vontade de fugir, de fazer coisas que não faziam o menor sentido, como sair correndo pelo gramado, dançar na tempestade, chorar compulsivamente enquanto rasgava suas próprias roupas ou se cortar até fazer parar a dor.
Havia sempre essa sensação de estar a sombra de algo, ou de ser à sombra de algo. Ana não entendia o que era que lhe faltava neste mundo. Por que sempre tinha pesadelos e flashes de coisas violentas? Sonhava acordada, conversava com pessoas que ninguém mais via, sempre via animais onde eles não existiam, certa vez viu ao meio dia um enorme lagarto passeando em frente a um restaurante - Alucinei! pensou ela.

Ana estava cansada de tentar entender o que acontecia, cansada de sentir aquela dor estranha que a deixava tão inerte, de tentar distinguir o que era real da imaginação.

Naquele dia ela estava sozinha em casa, sua mãe iria dormir na casa de uma amiga para cuidar dos filhos dela. Seu irmão era vendedor e trabalhava em outra cidade, não voltaria para casa aquela noite. Sentou-se no sofá, pegou o garrafão de vinho, sim garrafão, e começou a beber. Tomou pouco mais da metade, desligou o som, não se ouvia nada além dos grilos lá fora, a chácara estava totalmente quieta. No peito de Ana rebombava um impulso de deixar esse lugar, de aquietar-se no silêncio. Então foi até o armário da cozinha e pegou a caixa de remédios, nada muito forte, mas misturou e tomou todos juntos. Voltou ao sofá e começou a beber mais vinho, chorava muito e nem sabia por que chorava, tudo parecia demorar muito, não estava morrendo. Então olhou para o chão e viu a lata verde com letras vermelhas e pretas e o desenho da típica caveirinha nela, não hesitou, tomou também o veneno, ajoelhou-se no chão e ainda chorava.
Começou a sentir dores na barriga, agora babava, seu corpo ficava quente e frio ao mesmo tempo e seu estômago doía muito, de repente ouviu ao longe um barulho de moto, seu irmão desistira de posar em outra cidade, pois sentira-se agoniado - disse ele depois. Quando ele entrou, ela estava babando e urrando como um animal, não lhe disse nada, ele viu os remédios pelo chão, o vinho, e por fim, o veneno. Ele sempre fora muito prático e em poucos minutos tinha chamado o vizinho que levou Ana de carro ao pronto socorro da cidade que ficava ha alguns quilômetros dali, enquanto de moto seguiu logo depois com os frascos de remédio e o veneno. No carro Ana não disse nada, apenas babava controlando os urros, chegando ao pronto socorro logo lhe fizeram uma lavagem estomacal.
O médico perguntava a Ana o que ela havia tomado, ela não disse nada. Ele bravo, bateu-lhe no peito enquanto a enfermeira passava a sonda, este gesto rendeu a Ana um machucado na garganta. Logo chegou seu irmão, com as informações necessárias para q o médico lhe aplicasse a medicação correta.
Todas as medidas foram tomadas, Ana teve alta e logo estavam na recepção sua tia e seu irmão, a esperando. Sua tia que fora durante toda a vida sua melhor amiga, companheira, confidente, a única que não questionava o jeito de Ana, a abraçou chorando e disse para que Ana se esforçasse para permanecer aqui, pois era esse o seu lugar.
Durante muito tempo Ana se questionou por não ter conseguido partir, mas depois pensou, não morri, pois já nasci morta para este mundo.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Mensagem tardia de feliz dia dos pais




Sapato 36 - Raul Seixas

Eu calço é 37
Meu pai me dá 36
Dói, mas no dia seguinte
Aperto meu pé outra vez
Eu aperto meu pé outra vez

Pai eu já tô crescidinho
Pague prá ver, que eu aposto
Vou escolher meu sapato
E andar do jeito que eu gosto
E andar do jeito que eu gosto

Por que cargas d'águas
Você acha que tem o direito
De afogar tudo aquilo que eu
Sinto em meu peito
Você só vai ter o respeito que quer
Na realidade
No dia em que você souber respeitar
A minha vontade
Meu pai
Meu pai

Pai já tô indo-me embora
Quero partir sem brigar
Pois eu já escolhi meu sapato
Que não vai mais me apertar
Que não vai mais me apertar
Que não vai mais me apertar

Por que cargas d'águas
Você acha que tem o direito
De afogar tudo aquilo que eu
Sinto em meu peito
Você só vai ter o respeito que quer
Na realidade
No dia em que você souber respeitar
A minha vontade
Meu pai
Meu pai

Pai já tô indo-me embora
Eu quero partir sem brigar
Já escolhi meu sapato
Que não vai mais me apertar
Que não vai mais me apertar
Que não vai mais me apertar

Segunda parte de um conto




(se você não leu a primeira parte deste conto, ela está logo abaixo desta, em uma publicação anterior)

Estou no sofá e apenas observo cada detalhe daquele corpo jovem e nu que dança a minha frente, ela então vem a mim, põe os seios próximos a minha boca, mas sai antes que eu possa morde-la, não me incomodo me excito na verdade, ela então senta-se no sofá em frente do que estou e coloca uma das pernas sobre ele, provocante. Eu aceito o convite claro, derramo vinho sobre seu corpo e começo a degustá-lo, junto com o gosto de sua pele que é suave, macia, sempre mordendo-lhe levemente enquanto ela se contorce no sofá soltando leves gemidos, ela está entregue e louca, proponho então que vamos para o meu quarto e a levo entre beijos e mordidas. Estamos então no cômodo mais escuro da casa, há apenas a luz de uma luminária em tom ocre num dos cantos, há luz apenas necessária para que possa ver o contorno de sua silhueta, nos excitamos um pouco mais a deixo pedindo por sexo, sinto exalar de seu corpo o cheiro desse suplício, então proponho nova brincadeira que ele aceita rapidamente, prendo seus braços em amarras na cabeceira de minha cama, que já haviam sido devidamente preparadas, antes mesmo de eu sair a rua aquela noite, começo a chupar e morder cada pedaço de seu corpo, ela geme e se contorce cada vez mais, então prendo-lhe as pernas em mais outras duas amarras também previamente preparadas, ela mau percebe o que houve,levanto-me e ascendo a luz. Ela ainda estava de olhos fechados, aos poucos para de contorcer-se e abre os olhos, tendo a visão que faria com que todo o odor de seu corpo mudasse.
No této há algumas cabeças humanas penduradas, quase parecem de cera não fosse a aparência de carne secando ao sol, a tão bela e instigante jovem agora não geme mais mas solta um grito de pavor, que me extasia de maneira inigualável, eu, calmamente caminho pelo quarto e lhe mostro em um dos cantos uma mesinha, nesta algumas lâminas, facas de vários tamanhos e com formatos singulares, escolho uma, volto para a cama, beijo-lhe os lábios mas agora ela não retribui, a pequena criança, digo a ela, não se entristeça, vou mostrar-lhe que aprecio muito mais do que qualquer pessoa o seu corpo a sua carne. Cheiro-lhe a nuca, há um leve odor de pavor, suas mãos estão frias, desço beijando todo seu corpo, seu ventre, suas coxas, observando cada pedacinho dele, com a lâmina faço primeiro um pequeno corte abaixo de seus seios, seios lindos, ela grita, grita muito, melhor amordaça-la penso eu, ora mas para que? esta casa é a prova de sons e além do mais adoro a música do desespero e da dor destas tolas criaturas, uma pena porque logo ela desmaia, não sei se de susto ou de dor.
Bom eu continuo lentamente carneando aquele saboroso animal jovem e cheirando ainda cada parte antes de cortá-la. Termino a noite comendo seios assados e purê de vegetais, tudo acompanhado com um bom vinho tinto.

domingo, 2 de agosto de 2009

Primeira parte de um conto



Naquela noite fria em que todos se escondiam em suas casas, uns por conta do frio outros por medo da epidemia, eu saí as ruas, quase vazias, apenas algumas almas perdidas buscando por algum alívio que uma noite de bebedeiras ou sexo pudesse lhes proporcionar. Me fascina a lascividade de certas criaturas, os seus erros tão recorrentes, a necessidades de afirmar sua força, sua existência, tolas criaturas apenas em busca de anestesia e isso eu poderia dar...
Sento-me num bar a noite, só, pareço uma presa fácil, gosto disso, as criaturas tolas sentem-se fortes com isso, tenho vontade de amá-las, não isso não é tão verdade assim, gosto mesmo é de rir delas.
Certo, estou presa fácil só num lugar impróprio a pessoas assim, e é como funciono como uma planta carnívora, dissimulada, mentirosa, pesadas palavras não? Não, não são, a hipocrisia é que é muita, desculpem tenho o péssimo hábito de falar muito sobre a mesma coisa, pois bem de repente aproxima-se de mim uma jovem, com lindo sorriso, pele macia cabelos curtos, olhos curiosos, brincando de sedução, ora mas comigo? sim comigo, deixo, finjo que não entendo bem o que ela quer, nós conversamos, me deixo seduzir.
Sorrisos gestos, tantos pequenos sinais de vítima apesar da postura de caçadora, adoro as crianças, tão espontâneas, ela então vira-se e beija-me mordiscando meus lábios, adoro mordidas, retribuo.
Ela continua andando quase como quem dança, vai ao bar pega uma bebida e volta, desfilando para que eu aprecie seu belo corpo juvenil, eu aprecio mais do que ela supõe.
Ela insinua querer sair dali, eu aprovo, digo que moro perto e que há bastante espaço...
Saímos do bar e seguimos para minha casa, duas quadras dali. Entramos, eu abro um vinho e coloco uma música, ela está a vontade, a vontade para me provocar, começa a dançar e lentamente vai tirando a roupa, que peça por peça é arremessada ao chão ...

Saudades...

Quanta falta sinto dos teus sorrisos sinceros, das tuas caras e bocas, do seu brilho no olhar, que olhar.
Agora pareces uma fotografia velha, perdeu a expressão, quase nunca levanta o olhar, nem sorri.
Como é injusto o espelho!!

22-08-2003

Amanhã será o dia de minha morte.
Amanhã sempre se morre um pouco mais


O amargo na boca o gosto de sangue na garganta
A doença que está em minha cabeça
mas não em meu corpo
A dor que nem é dor
é só ilusão
A falta e o escesso...
...confusão.

O que me atravessa

A luz o Som, a suntuosidade e beleza que vejo e não sou, a força do delicado.O cigarro queima entre meus dedos e o que sinto é como a fumaça que sobe, quase estou confortável, como quem passeia no parque num domingo de sol.
Me atravessa da cabeça aos pés, as cores, a maciez e brilho dos tecidos.
Nenhum desejo, apenas estou.
A necessidade de escrever o que não tem palavras, aos poucos o peito diminui em rebombadas, inflando enquanto o som me deixa quase irritada, como se esse som pudesse explodir meu peito.
Escrevo para não gritar. Tudo sob controle,um descontrole controlado, expressado apenas pela força com que seguro o lápis.
O vermelho das paredes, como sangue fresco derramado, o arroto que não sai.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

O primeiro sonho




Me encontrava em um quarto, uma cama imensa com lençóis vermelhos, ouvia de longe o uivo de lobos, senti pavor, entrei debaixo dos lençóis e de repente os uivos pareciam quase gargalhadas, ouvi um choro de criança, me levantei e olhei pela janela, era uma casa muito alta e de lá vi debaixo de uma árvore os lobos que estavam em volta de um bebê que tinha embrulhado em seu corpo apenas um pano branco, os lobos fizeram um círculo e atacaram a criança que nem teve tempo de gritar, tão rápida foi estraçalhada pelas feras e o tecido branco que o envolvia agora era tinto de sangue. Apavorada voltei para a cama cobri a cabeça e tentei entoar alguma canção alegre, de repente senti um agradável cheiro de flores, descobri a cabeça e lá estava diante de um jardim imenso de flores amarelas, liláses, brancas, azuis,tantas cores, eram flores delicadas e seus pés tinham a altura de um milharal,fiquei maravilhada com tanta beleza, então olhei para baixo e vi que havia um caminho de pedras estreito, como uma passarela, comecei a acompanhá-la então avistei uma pequena parede de pedra que estava na encosta de um morro, fui me aproximando e quando estava diante da parede vi um facão sujo de sangue jogado ao chão, e essa parede era na verdade um local de sacrifícios, desses de rituais, fui chegando mais perto e então encontrei nas reentrâncias das pedras uma cabeça Humana, seu coração havia sido arrancado de seu corpo e colocado em sua boca, logo abaixo havia uma fenda pela qual escorria o sangue, segui com os olhos aquele pequeno córrego de sangue e percebi que ele ia diretamente para o chão do jardim, então o cheiro mudou, senti um frio na espinha, e ao me virar para o jardim vi que ele na verdade era um campo de empalados, centenas de corpos. O cheiro deste novo jardim era de carne putrefata.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Fuga nº II Mutantes (1969)




Hoje eu vou fugir de casa
Vou levar a mala cheia de ilusão
Vou deixar alguma coisa velha
Esparramada toda pelo chão
Vou correr num automóvel
Enorme, forte, a sorte, a morte a esperar
Vultos altos e baixos
Que me assustavam só em olhar

Pra onde eu vou, ah
Pra onde eu vou, venha também
Pra onde eu vou, venha também
Pra onde eu vou

Faróis altos e baixos
Que me fotografam a me procurar
Dois olhos de mercúrio
Iluminam meus passos a me espionar
O sinal está vermelho
E os carros vão passando
E eu ando, ando, ando...
Minha roupa atravessa
E me leva pela mão
Do chão, do chão, do chão...

Do meu segundo contato com a morte

No meu segundo contato com a morte, sim porque ouve um primeiro, morte que eu causei...
...me lembro de ser alguém que executa o que é necessário, sem questionar muito ou pensar antes, depois sim , nunca antes, para não correr o risco de não executar, se havia uma cobra no quintal ou se era necessário retirar uma aranha ou rato de dentro de casa, eu o fazia sem hesitar. A morte para mim sempre foi algo natural, quando soltávamos as galinhas no quintal para que comecem os escorpiões, ou mesmo quando pescávamos lambari e os limpávamos para comê-los quando crianças.
Pois bem, do meu segundo contato com a morte, não me lembro de muitas sensações, mas me lembro das cores, criávamos porcos para vender, tanto vivos quanto mortos e limpos, sim porque nem todos conseguem ver a morte assim de frente, é necessário que existam outras pessoas para fazê-lo, tornando assim os outros menos assassinos. Eu sempre ajudara nessas tarefas, limpava com água fervente a pele do porco morto para retirar os pêlos com o auxílio de uma faca, cortava as carnes afim de separá-las, jogava terra sobre o sangue no chão para evitar moscas e também a má impressão a quem visse.
Naquele dia , coloquei as botas e prendi o cabelo como de costume, seu Antônio já havia amarrado o porco que berrava deitado no chão, então ele me deu a faca, uma faca pontiaguda e longa e me disse mostrando no animal onde eu deveria cravar a lâmina, empunhei a faca e enfiei com força no bicho, no primeiro contato parecia uma carne resistente, meio grossa, depois não, depois ficou macia e a lâmina entrou completamente, o porco berrava muito mais agora, eu só queria fazê-lo calar. O sangue muito vermelho jorrava da fenda e caía por sobre sua pele cinza, atingindo o chão que também se tingia, seu Antônio me avisou que eu havia furado no lugar errado, então comecei a procurar com a lâmina o local certo, porém, não a tirei de dentro do bicho que começou a berrar muito mais.
Seu Antônio tomou a lâmina de minha mão e disse:
- Assim não - então procedeu como se deve e logo o bicho silenciou.
Sua língua estava para fora, de um canto da boca, ainda com um pouco de espuma.

Porque a tristeza existe de fato

Quando há uma dor em mim que não sai, não sai em lágrimas, num grito ou em qualquer outra forma, está contida ali, presa. Represada, enchendo meu corpo como um gás. Sobe até a cabeça ameaça sair pelos olhos pelas narinas, mas volta, desce ao peito, o infla como se fosse explodi-lo e então se alastra por todo o corpo, vai á ponta dos dedos. Faz quase doer a pele na ânsia de sair, não sai, fico como uma garrafa de refrigerante quente que foi agitada pela mão de uma criança.
Sinto e aceito, sou sensível, sensível de mais, quero sempre acertar e quando claramente erro, me sinto menor, isso é algo com o que tenho q trabalhar. Não posso ser tão atingida assim, não quero estar tão vulnerável assim.
Preciso chorar hoje, preciso realmente chorar...
Sem explicações do que houve para isso, apenas porque sou humana, ao menos parte de mim é.

Sonho sobre traição

Tarde quase noite, uma jovem de aproximadamente 14 anos está em seu quarto, deitada em sua cama, negra, bonita, boca grande, fala de seus sonhos e do carinho pelo pai, que lhe promete o mundo e ela, sempre acredita, está olhando para mim e suas palavras saem suaves, neste momento há outra cena, o pai está entrando em outro local, vejo a ruazinha escura de chão batido e ao fim da rua uma casa com uma outra jovem quase da mesma idade da primeira, talvez mais nova, o pai então entra, a garota lhe sorri um misto de ingenuidade e sensualidade, neste momento percebo que é ela, a amante, a que recebe os presentes e o concreto e não os sonhos e promessas.

Sonho sobre assassinato

Um travesti, uns 35 anos, alto, 1,80 aproximadamente, loiro, meio calvo cabelos lisos até a altura dos ombros largos, rosto meio quadrado, olhos claros, boca larga e não carnuda, vestidinho vermelho frente única decotado, rodado na parte da saia, pernas grossas, um pouco musculosas, mas não muito. Sai à rua para fazer ponto, apesar de corpulento e ser reconhecido facilmente como homem , tem um andar muito leve, meio felino. No caminho para as ruas, enrosca o salto da sandália branca e cai numa parte do asfalto que está com as pedrinhas soltas, cai ao chão, machucando um pouco os joelhos que ficam ralados e com pontinhos de sangue bem pequenos aparecendo. O rapaz levanta-se e bate a roupa que ficou um pouco suja e os joelhos e continua seu destino. Chega ao local, uma quadra de esportes dessas de bairro, pouco iluminada e para, coloca a bolsinha apoiada no antebraço e espera calmamente. Chegam alguns rapazes, uns 5 + ou -, jovens e fortes, cercam o rapaz e começam a bater-lhe, ele cai ao chão, levanta-se e se arruma da mesma maneira de quando havia caído sozinho na rua, ajeita o cabelo e limpa o sangue do rosto delicadamente, como se nada tivesse acontecido, outros golpes sucedem o primeiro e tudo se repete da mesma forma, então um dos rapazes diz que agora estão prontos pra fazer o programa, não há raiva ou medo nos olhos do travesti, na verdade não há expressão alguma, ele simplesmente vira-se levantando um pouco a bunda para o lado deste rapaz, que quebra o fundo uma garrafa de cerveja que segurava na mão coloca no ânus do travesti a parte quebrada e chuta com força, o sangue jorra escorrendo-lhe pelas pernas, logo em seguida o jovem saca uma faca, na verdade uma espécie de punhal com uma lâmina muito grande e meio curva, introduz no ânus do travesti e corta-o em direção a barriga, fazendo um enorme corte do qual sai todo o intestino que cai ao chão em mais uma dança de sangue e tripas.

O primeiro passo

Esse é o meu primeiro passo em linhas, ao menos em torná-las públicas
Algo em mim clama por sair, algo que não é físico, é quase etéreo, é desejo, angústia, erupção...
Hoje o dia está propício para o tédio apesar de o sol ter mostrado sua existência ainda que fugaz pela manhã. Tudo voltou a ser cinza essa cor que me entristece em vários pixels, que seja, deixe então que a tristeza tome forma fique o necessário e saia, pois é esse o caminho das coisas, o meu caminho. Eu quero apenas uma coisa...
...ter asas.